João-Ninguém

João-Ninguém

 

O coitado do João

Caído no chão

Duro de frio

Todos que passam

Somente olham

Sem ter um arrepio

Quando se levanta

Com o pedaço de manta

Vai rastejando

Pra chegar onde

E o pobre coitado

Todo rasgado

Vai andando

 

Será que alguém

Desse João-Ninguém

Foi vizinho?

E o pobre vai

Seguindo o caminho

Sempre sozinho

Sem pão sem carinho

Porque é João-Ninguém

 

João de onde veio

Talvez do nosso meio

Sem quem tem o orientasse

Todo sujo, nojento

Passando o tempo

Vai envelhecendo

Aos poucos morrendo

 

Que importa a sua vida,

Para o mundo, que é bicho

Que se joga no lixo?

Por que socorrer?

Ele tem que morrer!

Todos dele fogem

Pois que morra hoje

 

Assim termina João

Deitado no chão.

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Ah! Que saudade que eu tenho

Ah! Que saudade que eu tenho

 

Ah! Que saudade que eu tenho

Da terra  onde morei

– Se eu pudesse voltaria lá –

Saudade do que no passado está

 

Saudades dos raios de sol nos galhos

Da terra vermelha no chão

Da brisa balançando as folhas

Do cheiro da plantação

 

Do canto do galo que acorda

Do leite espumoso tirado na hora

Da escola que tão pouco freqüentei

Das modinhas diferentes de agora

 

Do trole, do trem lá ao longe

Do verde do canavial

Do caule frondoso da mangueira

Das leiras do mandiocal

 

Da polenta, da puína, da garapa

Da lingüiça , morcela, do  pão,

Do café com leite e queijo

Derretido na lenha do fogão

 

Dos cantos de roda, dos licores

Do truco, da quermesse, do bordado

Da missa, do terço, da procissão

Do chapéu intrometido do namorado

 

Da sanfona que gemia ao longe

Dos namoricos no caminho da capela

Dos pés descalços, das tranças, das fitas

Ah! Que saudades da minha janela!

 

Ah! Que saudade que eu tenho

Da terra  onde morei

– Se eu pudesse voltaria lá –

Saudade do que no passado está